13.09.2007

A crise financeira e a economia real

Luís Mira Amaral

 
Os excedentes comerciais da China e a elevada renda petrolífera dos países produtores de petróleo criaram uma grande liquidez no sistema financeiro internacional.

Esse excesso de liquidez esbateu a sensibilidade e as precauções em relação à tomada de risco pelos investidores. Por outras palavras, o risco estava barato e, por isso, havia crédito barato e abundante.

A crise financeira desencadeada pelos problemas do segmento baixo do mercado hipotecário americano (o ‘sub-prime mortgage’) veio secar a liquidez e provocar um ‘repricing’ generalizado do risco em todos os segmentos do mercado. O crédito tornou-se mais escasso e mais caro, o que do ponto de vista da correcção dos excessos cometidos, até não seria mau. O problema é que a crise financeira vai, fatal e inexoravelmente, afectar o lado real da economia, a chamada economia real. Tal teria que acontecer pois a economia é um sistema, com dois lados, o financeiro e o real, a interagirem.

Assiste-se já a uma revisão em baixa das projecções de crescimento económico mundial, americano, europeu e português. Más notícias pois para nós, que já tínhamos um crescimento anémico e mais anémico poderá ficar. A acrescer a isto as crescentes dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo económico espanhol, tema que abordaremos em próximo artigo. A Espanha, altamente dependente do mercado imobiliário e das taxas de juro, vai ter a sua ‘performance’ económica afectada e, por via disso, estará posta em causa aquela economia que tem sido um dos motores do crescimento das nossas exportações.

As autênticas e chocantes vigarices passadas no ‘sub-prime mortgage’ americano, bem descritas em artigos do “Business Week”, lembram-nos o comentário que nestas colunas fizemos no artigo “A purga da ‘corporate’ America” aquando dos escândalos contabilísticos das empresas como a Enron. Dizíamos nós que se tal se passasse nos países do “Med Club” o que diriam de nós os americanos...

O problema é que nos mercados financeiros muito desenvolvidos e sofisticados, como o americano, o mercado de crédito hipotecário transformou-se num mercado de activos: não interessa o rendimento do devedor, o que interessa é o activo (a casa) que ele vai comprar com o empréstimo. Por isso é que se chama a esse tipo de empréstimos os “NINJA - ‘No income no jobs or assets’” daquele que pediu o empréstimo. Enquanto o valor das casas for subindo, a instituição credora está segura pois, se o devedor não pagar, o emprestador vai-lhe buscar o activo que entretanto já se valorizou... O problema é quando a bolha imobiliária estoira e o valor do activo começa a descer...

O problema do ‘sub-prime mortgage’ não é infelizmente apenas um problema que fique confinado aos EUA. Tal é imediatamente passado ao sistema financeiro internacional e por via disso à economia mundial, basicamente por dois mecanismos: (1) com os actuais sistemas de informação e comunicação, qualquer problema numa praça financeira é transmitido imediatamente a todo o mundo; (2) com a actual inovação financeiro temos cada vez mais: mercados de crédito e segmentos dos mercados obrigacionistas cada vez mais alavancados no refinanciamento das hipotecas; formas de titularização mais complexas que levam a que cada operação seja partida em diversas partes, com graus de risco diferenciados, que depois são agregados em novos produtos com ‘ratings’ que permitem a sua colocação no mercado (aqui parece que as agências de ‘rating’ facilitaram as coisas...) Os produtos mais conhecidos hoje em dia neste contexto dividem-se basicamente em ABS (’asset backed securities’) e CDO (’colateralized debt obligations’), consoante repousem em acções ou em títulos da dívida.

É então fácil de perceber que os produtos financeiros colocados em todo o mundo podem ter incorporados tranches de ‘loans’ do ‘sub-prime mortgage’ americano. Neste contexto, julgo que ainda não se conhece a verdadeira e real extensão da contaminação desses ‘loans’ ao sistema financeiro internacional.

 

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