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20.09.2007 Os bancos centrais e a economia real Luís Mira Amaral |
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Os bancos centrais (como o Fed americano ou o BCE na zona euro) têm dois tipos de objectivos: a estabilidade macroeconómica e a solidez do sistema financeiro No que toca à estabilidade macroeconómica, ela tem a ver basicamente com a estabilidade dos preços (e daí o objectivo quanto à inflação) e com o nível de emprego e de ‘output’ da economia. Pelos estatutos, aparentemente o BCE só se preocupa com a inflação enquanto o Fed tem a ver com os dois.
No que toca à solidez do sistema financeiro, tal é
fundamental para a estabilidade da economia real pelo que se justifica a
intervenção dos bancos centrais. Só que ao fazê-lo poderão estar a salvar
instituições financeiras que mereciam ir à falência pelas suas práticas
irresponsáveis. É o chamado ‘moral hazard’ em que aqueles que têm uma
conduta irresponsável e imoral acabam por ser salvos por todos os
contribuintes através da intervenção pública, o que acaba por lhes dar o
incentivo para continuarem com essas praticas. Os bancos normalmente emprestam dinheiro uns aos outros através do mercado interbancário, o qual tem por função lubrificar o sistema movendo o ‘cash’ para onde ele é mais necessário. É fácil de perceber que o preço com que os bancos emprestam dinheiro uns aos outros a curto prazo nesses mercados estará relacionado com a taxa de juro estabelecida pelo banco central quando actua como emprestador de último recurso do sistema bancário, no que será então um mecanismo alternativo ao mercado interbancário. Quando há problemas de liquidez, as taxas de juro no mercado interbancário tendem a subir e por isso os bancos centrais ajudam, injectando liquidez (como fizeram o Fed e o BCE) ou baixando a taxa de desconto com que emprestam aos bancos, como fez o Fed. Os banqueiros centrais vêm agora dizer que o seu objectivo é da estabilidade do sistema assegurando a normalização do financiamento dos mercados. Mas será realmente assim? É evidente que os banqueiros centrais terão de fornecer liquidez ao mercado a taxas de juro penalizadoras (pois que o seguro das más instituições não deve ser grátis…) e ajustar as taxas de juro às condições macroeconómicas. Mas não deverão fazer o ‘bailing out’ dos especuladores pois se assim fosse, estes na próxima vez terão o mesmo comportamento. Alguns dizem que o Fed ao baixar a taxa de desconto dos empréstimos aos bancos (atrás referida) tornou a injecção de liquidez muito barata e que o BCE, ao injectar grandes doses de liquidez, fez uma provisão excessiva. Bernanke no Fed e Trichet no BCE jogam então a sua credibilidade nesta crise. Outros dizem que os bancos centrais não deviam regular apenas as instituições mas também os produtos. Tal será excessivo, a nosso ver, pois significaria uma quase nacionalização dos bancos. Aqui nos produtos quem falhou a nosso ver foram as agências de ‘rating’ ao emitirem uma notação boa para produtos que a não mereciam e por isso é que consideramos que nesta crise “ficam mal no retrato” as agências de ‘rating’ como na crise dos escândalos financeiros das empresas tipo Enron foram as empresas de auditoria a “ficar mal na fotografia”. Seja como for, a evolução da economia mundial estará muito dependente das ligações e interacções entre os mercados financeiros, os mercados imobiliários (sobretudo nos Estados Unidos) e a economia real nas suas componentes de consumo (sobretudo nos Estados Unidos) e investimento.
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