27.09.2007

Coisas novas, coisas velhas

Vítor Bento

 

 

Não tenho opinião suficientemente informada sobre os transgénicos, mas tenho observado com curiosidade as movimentações de contestação, interessando-me sobretudo por perceber o que está para além das aparências. Tentando racionalizar a oposição, a partir de declarações dispersas, poderá dizer-se que a mesma se funda na ideia de que, não havendo a certeza de que, para além dos eventuais benefícios anunciados, os transgénicos não possam provocar sérios efeitos indesejados – quer ao nível ecológico, quer ao nível da saúde pública – é mais prudente rejeitar a inovação do que aceitá-la.

Trata-se, na essência, de uma compreensível e respeitável posição conservadora, tal como é caracterizada por Owen Harris (”What Conservatism means”): “Há dois problemas de que os conservadores sempre tiveram aguda consciência. O primeiro é o das consequências indesejadas – de que, dada a complexidade e a inter-relação das coisas, quando se inicia um processo de mudança a grande escala põe-se em marcha muito mais do que tinha em mente o iniciador e o resultado pode ser muito diferente daquele que se pretendia”.

É claro que consistentemente defendida, como todas as posições conservadoras, conduz ao impedimento de qualquer progresso, cujas inovações nunca são isentas de riscos, só mais tarde totalmente conhecidos.

Mas o que me tem intrigado é que muitos dos conservadores nos transgénicos são em geral progressistas no que se refere à ordem social, estando frequentemente associados à promoção ou aprovação da sua alteração radical, nomeadamente a via revolucionária. Esta, porém e como a história tem demonstrado, é habitualmente dominada por consequências indesejadas e envolve consideráveis malefícios para a saúde de milhões de pessoas. Veja-se o terror que se seguiu à Revolução Francesa, veja-se a mortandade dos regimes comunistas, vejam-se as mortes e a destruição que as revoluções em geral acarretam. Tudo em nome de apreciáveis objectivos.

E o fenómeno é intrigante porque as pessoas têm, em geral, uma linha de coerência interna (uma unidade de espírito). Não parecendo ser a saúde pública (chamemos-lhe assim) o fio unificador daquelas duas posições – reaccionarismo científico nos transgénicos e progressismo na ordem social – outro fio deverá existir. Do que me é dado observar – e admito que haja melhores interpretações – o único ponto em comum que me parece existir entre as duas posições é a oposição aos “poderosos”.

Na verdade e da discussão que vi, por exemplo, a propósito da recente destruição de um campo de milho transgénico no Algarve, o que me pareceu estar em causa na oposição aos transgénicos não foram os factos científicos em si, mas o facto de eles serem desenvolvidos e promovidos pelas “grandes multinacionais”, que poderão vir a lucrar com isso. É por isso, talvez, nessa controvérsia a palavra que me apareceu mais vezes associada às expressões anti-transgénicos foi a palavra Monsanto (não se referindo, claro, ao parque ecológico de Lisboa). Fossem os transgénicos uma experiência artesanal do “povo”, ou um processo conduzido pelo Estado, e talvez as preocupações desaparecessem.

Fico, pois, convencido de que por detrás da nova máscara ecológica, se esconde, afinal e mais uma vez, o velho e conhecido anticapitalismo, ou seja, mais uma manifestação da velha “renovação na continuidade”.

Já tinha este escrito alinhavado quando me surgiu inesperadamente a melhor demonstração do que que aqui pretendi dizer: o artigo de Boaventura S. Santos, na “Visão” de 30 de Agosto. Não há nele um único argumento científico sobre o assunto; não há um único juízo informado sobre a bondade ou maldade dos transgénicos; toda a argumentação é contra as grandes empresas e a favor das transformações sociais. Eu não conseguiria ser mais eloquente no que pretendia dizer.

Continuo a saber pouco sobre transgénicos, mas não sei como enfrentar a crise de produção alimentar que parece avizinhar-se sem aumentar consideravelmente a produtividade do sector. E não me parece que a agricultura biológica consiga responder ao desafio. Veremos...

 

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