|
|
15.10.2007 A competitividade da floresta Rui Moreira de Carvalho |
|
|
A presidência portuguesa da União Europeia intenta apresentar empresas-modelo em sectores estratégicos como a energia, a tecnologia, o turismo e a floresta. Esta visão pode ser uma excelente oportunidade para muitas regiões economicamente desfavorecidas. Por qualquer ângulo que se analise o contexto, a floresta surge como um importante ‘pivot’ da competitividade nacional. Desde a indústria do mobiliário, que cresceu cerca de 20 % no último ano, passando pelo ‘cluster’ da pasta do papel, que está aumentar significativamente a sua capacidade produtiva, até à produção de energia eléctrica com utilização de biomassa tendencialmente proveniente da limpeza da floresta (segundo a meta prevista pelo governo para 2010 de uma potência instalada de 250 MW), a floresta vive momentos de esperança. No entanto, sendo a biomassa florestal um recurso limitado, é legítimo perguntar como irá o mercado reagir a este aumento exponencial da procura. Naturalmente que os actuais operadores tenderão a ser mais eficientes. Muitos outros poderão surgir, identificando nas fragilidades uma oportunidade. Também se estenderá um interessante espaço para o “papel” da tecnologia na criação de valor do recurso. Conceber condições para que a floresta seja considerada um recurso e não um combustível é, pois, uma aposta importante, necessária e exequível. Importa recordar que cerca de 87 % da floresta é de origem privada e, desta, cerca de dois terços são propriedades de pequena ou mesmo muito pequena dimensão, ao que acresce, muitas vezes, que o cadastro florestal destas propriedades não está actualizado. Estes proprietários também devem fazer parte da “solução”. Conquanto, investimentos isolados, sem ganho de escala nem uma logística de recolha e transporte coordenada a nível macro-regional, dificilmente serão viáveis. Assim, e numa perspectiva de rentabilizar os investimentos face à expectável carência de recursos, resta aumentar o preço do produto (energia eléctrica vendida) ou, ainda, importar biomassa. Ao aumento do subsídio à energia eléctrica produzida através da denominada “economia verde” implica um esforço a ser pago, naturalmente, pelos seus utilizadores. A importação de biomassa pode, no limite, levar à deslocalização das empresas da fileira do papel. Estas duas situações não ajudam Portugal. Felizmente é possível fomentar novas oportunidades. Em regra, as regiões onde, normalmente, será difícil recolher e transportar a biomassa, apresentam características socioeconómicas susceptíveis de promover modelos de financiamento de micro-investimentos para a aquisição de equipamento para essas actividades. Foi precisamente um contexto algo semelhante, baseado em cooperação de perfil comunal, que estimulou Muhammad Yunus (prémio Nobel da Paz em 2006) a criar o Grameen Bank, no Bangladesh, hoje com 3,5 milhões de clientes, 12 mil empregos e auto-sustentado. A floresta só sobrevirá se as pessoas que nela se inserem acreditarem, e prosperarem.
Estamos na presença de investimentos
com algum grau de risco. No entanto, não nos devemos refugiar em soluções
exógenas, nomeadamente em pedidos de subsídios para viabilizar os projectos.
É possível inovar em termos organizacionais e tecnológicos através de
soluções passíveis de mitigarem as assimetrias regionais.
|
||
|
||
|
Comentários: |