À semelhança dos anos anteriores, o Forum para
a Competitividade organizou anteontem uma conferência destinada
a fazer um primeiro balanço do OE 2007 e uma primeira avaliação
do OE 2008.
A quem não pôde estar presente recomenda-se vivamente a consulta
no ‘site’ do Forum das intervenções feitas – todas elas de
elevada qualidade, particularmente no que diz respeito à muito
menor do que desejável contribuição da redução da despesa
pública para a redução do défice orçamental.
De todos os temas versados na conferência gostaria, contudo, de
aqui destacar três problemas, de que já me ocupei por várias
vezes nestas crónicas.
1. Em primeiro lugar,
impõe-se a necessidade de definir de uma vez por todas o
perímetro financeiro e, consequentemente, orçamental do Estado –
sob pena de, ano após ano, estarmos a comparar maçãs com
bananas.
As SCUT entram ou não ? E as despesas com as EPE dos hospitais
públicos ? E os custos do Instituto das Estradas de Portugal ?
E por aí fora...
Sem esta definição estabelecida com rigor e a título permanente,
continuarão os sucessivos governos a caírem na tentação de
sofisticadas desorçamentações, perpetuando uma situação algo
surrealista, qual seja a de a cada ano os indicadores
financeiros registarem sensíveis melhorias sobre períodos
homólogos sem que a economia saia da cepa torta.
2. Segundo problema, o
perímetro financeiro e orçamental, bem como o exame imparcial de
terem sido ou não obedecidos em cada ano, deve ser confiado a
uma entidade independente do ponto de vista político.
Com uma solução deste tipo conseguir-se-á despartidarizar o
controle da ‘performance’ financeira e da execução orçamental
dos governos, quaisquer que eles sejam, sem que de algum modo as
funções desta entidade se sobreponham ou confundam com as
atribuições do Tribunal de Contas. Além do mais, salvaguardando
a imparcialidade que deve caracterizar a função do governador do
nosso banco central, evitar-se-á o lamentável e pouco pedagógico
espectáculo ocorrido com o OE 2002 e com o OE 2005, quando os
governos, respectivamente, de Durão Barroso e José Sócrates lhe
cometeram a inacreditável tarefa de declarar oficialmente que as
previsões orçamentais eram falsas e que as contas públicas em
que se baseavam falsas eram.
3. Terceiro e último
problema que aqui destaco, o Estado deve proceder com urgência à
liquidação dos pagamentos que tem atrasados – em nome das mais
elementares regras de seriedade nas relações com os agentes
económicos privados.
Ninguém de boa fé põe em causa o princípio indiscutível de que
os impostos são para pagar, que o combate à evasão fiscal deve
ser firme, e que os faltosos devem ser punidos. Mas a mesma boa
fé impõe que ao Estado se exija a mesma idoneidade e, quando não
cumpra, conheça outras punições para além de uma eventual
punição eleitoral.
E não se argumente com a diferença de tratamento destes
atrasados consoante a óptica seja a da contabilidade nacional ou
a da contabilidade administrativa: são dívidas do Estado, são
responsabilidades assumidas e incorridas pela administração
pública central ou local. Para além de serem factor indiscutível
de corrupção (adiar pagamentos obriga a favores em novos
fornecimentos) e motivo de por vezes irrecuperável perda de
competitividade de quem aguarda meses, ou mesmo anos, para
receber o que lhe é devido. Aliás, o Estado reconheceu a
gravidade do problema dos atrasados ao publicar as listas de
devedores ao Fisco e à Segurança Social, esquecendo-se que, ao
publicar tais listas de caloteiros, se colocava a ele próprio
muito mal, pois é indubitavelmente o maior devedor e o pior
pagador.
A fazer fé na imprensa, o Governo terá mesmo prometido publicar
uma lista onde se “identificassem os principais credores do
Estado e se caracterizassem as dívidas respectivas”: não
publicou tal lista, mas em boa verdade pouco importa que não a
tenha publicado. O que verdadeiramente importa é que as liquide
sem demora.