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“Só o futuro é certo, o passado está sempre a mudar.”
(Provérbio húngaro, muito utilizado por
ministros das finanças)
É necessário conhecer a verdadeira situação financeira do
Estado. Para além das responsabilidades incluídas nos reportes a Bruxelas e
sobre as quais incide a atenção política e mediática, o Estado é
responsável, directa ou indirectamente, por muito mais passivos financeiros.
Estão neste caso, nomeadamente: a) as dívidas a fornecedores –
incompreensivelmente ignoradas pela contabilidade oficial; b) as
responsabilidades decorrentes dos contratos das denominadas parcerias
público-privadas ou similares – cuja omissão alimenta por vezes o discurso
intencionalmente ilusório de que não envolvem dispêndio para o Estado, ao
mesmo tempo que permite adiar para gestões futuras a pública expressão dos
custos de empreendimentos decididos “politicamente”, sem análise de
custos-benefícios; c) as dívidas das empresas públicas e similares,
recorrentemente deficitárias e, como tal, origem de despesa pública em
orçamentos seguintes ou fonte de aumento directo da dívida pública; d)
os avales do Estado.
Só a explicitação de todas estas responsabilidades permite
conhecer a verdadeira situação financeira do Estado (em sentido lato) e
saber qual o potencial de carga fiscal futura. Esta necessidade é tanto
maior quanto a frequente alteração do perímetro dos reportes oficias -
nomeadamente, com a transformação de entidades da Administração Pública em
empresas públicas – torna incomparáveis os valores oficialmente reportados
ano a ano.
Para tal, é preciso pôr a funcionar a sério um substituto
do GAFEEP que era o Gabinete de Análise do Financiamento do Sector Público,
criado pelo dr. Miguel Cadilhe. A verdade sobre as contas públicas não pode
ser circunstancial. Parece ter-se tornado hábito, com as mais recentes
sucessões de alternância democrática, que cada governo tenha a sua verdade
sobre as contas públicas – quer as contemporâneas, quer as dos predecessores
– e que, consequentemente, a verdade sobre uma dada situação mude quando
mudam os governos. A única forma de conseguir credibilizar as contas
públicas será cometer o seu apuramento a uma entidade independente, não
podendo obviamente ser entendida como independente uma entidade cuja
direcção mude quando mudam os governos. O Estado tem que ser uma pessoa de
bem e tem que actuar como tal, pagando a tempo e horas. Uma pecha recorrente
da nossa gestão pública, sobretudo quando se pretende iludir o rigor, é
atrasar pagamentos a fornecedores, “escondendo” desta forma as
responsabilidades constituídas.
Isto só é possível porque, incompreensivelmente, a nossa
contabilidade pública – e os órgãos de controlo – não considera
explicitamente os fornecimentos não pagos como despesa ou dívida pública.
Ainda alinhada por critérios antiquíssimos, a nossa dívida
pública só reconhece como tal a que tenha sido explicitamente
contratualizada, titularizada ou objecto de empréstimos chamados
financeiros. Dessa forma, as autorizações de despesa e de endividamento
dadas anualmente pelo Parlamento, com a aprovação do Orçamento, são
totalmente irrelevantes porque podem sempre ser impunemente excedidas pelo
expediente de consumir e não pagar. É certo que tem sido repetidamente dito
na óptica da Contabilidade Nacional – elaborada numa base de compromissos e
não de desembolsos – que as dívidas a fornecedores já foram contabilizadas
como despesa, pelo que estão incluídas no défice. Mas nunca foi feita a
demonstração dessa diferença entre a contabilidade pública e a contabilidade
nacional e não se compreende como é que, estando contabilizada no défice,
essa dívida não é paga atempadamente.
Para poder ser reconhecido como pessoa de bem e actuar em
conformidade, deverá o Estado: a) regularizar todos os atrasos a
fornecedores do Estado, com a emissão de dívida pública para o efeito: b)
estabelecer um prazo máximo para o pagamento regular dos fornecimentos ao
Estado – 60 dias – e responsabilizar pessoalmente os dirigentes pelo
cumprimentos desta regra.
Tais medidas teriam efeitos muito positivos na nossa
economia, pela injecção de liquidez que daria a muitas PME fornecedores do
Estado e também às empresas que, não sendo fornecedores directos, são
vítimas do atraso em cadeia dos pagamentos pelo Estado aos seus
fornecedores.
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