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20.12.2007 O dilema dos bancos centrais Luís Mira Amaral |
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Nas nossas economias, os banqueiros centrais fizeram no passado um trabalho notável no domínio da estabilidade dos preços. Hoje, com a actual crise financeira, a situação do mercado petrolífero, a ameaça de recessão nos EUA e a emergência das novas potências asiáticas, os nossos banqueiros centrais enfrentam novos dilemas para os quais não haverá teoria económica que os possa confortar ou orientar. Vão precisar de navegar à vista com muito bom senso, muito atentos ao comportamento psicológico dos agentes económicos. A gestão das expectativas é crucial! O FED, Banco Central Americano, enfrenta um dilema entre a frente interna e a frente externa. Ao decidir em 11/12/2007 reduzir a taxa de referência (FED Funds) de 4,5% para 4,25%, tal mostrou as suas preocupações com o estado actual da economia americana que, segundo alguns, estará perto da recessão. Este movimento foi contudo considerado insuficiente por alguns analistas, o que levou a reacções negativas dos mercados que esperavam maiores descidas. Contudo, esta decisão tem ou poderá ter consequências externas negativas, na medida em que poderá reforçar a tendência para a depreciação do dólar e a apreciação relativa do euro. Tal cenário de contínua depreciação do bilhete verde poderá, ainda, pôr em causa o seu estatuto de moeda internacional e a consequente cotação do petróleo em dólares. No que toca ao BCE, este também enfrenta um dilema: no plano interno, o crescimento de 12,3% do famoso agregado monetário M3, um dos pilares da política monetária europeia, reforça as preocupações do BCE sobre as tensões inflacionistas, o que levaria a tentar subir as taxas de juro. Basta revisitar Trichet no Financial Times “Why money has a vital role in monetary policy making” em que ele cita Friedrich Hayek “It is self-contradictory to discuss a process (inflation) which could not take place without money and at the same time to assume that money is absent or has no effect” para se perceber que ele considera haver sempre a prazo uma ligação entre massa monetária em circulação e inflação. Mas no plano externo, a actuação do FED, ao reduzir as taxas de juro, leva a uma tendência de apreciação do euro em relação ao dólar, o que põe em causa a veleidade do BCE em subir as taxas, forçando-o a manter o actual nível de taxas de juro ou mesmo reduzi-las. Por outro lado, o Banco Central chinês tem comprado maciçamente títulos americanos para manter o valor do dólar em relação à moeda chinesa, por forma a não permitir a sua revalorização em relação ao bilhete verde, com vista a sustentar a competitividade das exportações chinesas para os EUA. O jogo é simples: os EUA compram as mercadorias chinesas e os chineses compram os títulos americanos. Só que ao fazê-lo, aumentam as suas reservas em títulos sujeitos a grande desvalorização e não têm autonomia da sua política monetária para travar o aquecimento da economia. No meio disto, é preciso chamar a atenção que as taxas de juro que nós clientes e consumidores dos produtos bancários pagamos não são fixadas directamente pelos bancos centrais (eles apenas fixam taxas de referência). Neste contexto, eles poderão continuar a subir mesmo que as taxas de referência não subam ou desçam. Para as taxas de juro que nós pagamos, o outro elemento a ter em conta é a taxa do mercado interbancário (mercado em que os bancos comerciais emprestam dinheiro uns aos outros) e como os bancos desconfiam uns dos outros, por recearem que os seus congéneres estejam “infectados” com o ‘subprime’ e agora com os “SIV” – ‘Structural Investment Vehicles’ (tipicamente uma crise de confiança) e porque precisam do dinheiro para resgatarem fundos, há pouca liquidez nesse mercado, as taxas de juro sobem e esse movimento vem depois a ser transmitido às taxas que nós pagamos. Em suma, como prenda de Natal, poderemos dizer que as duvidas e incertezas se manterão em 2008, dado que a crise financeira desencadeada pelo ‘subprime’ e agora continuada com os ‘SIV’ está longe de estar resolvida (como aliás já chamámos a atenção no Diário Económico), mantendo-se os problemas de falta de confiança e a consequente crise de liquidez no sistema financeiro. À crise financeira junta-se a situação dos mercados petrolíferos para nos augurar um 2008 muito difícil na frente económica. |
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