27.12.2007

As perspectivas económicas para 2008

Luís Mira Amaral

 

Os EUA enfrentam dificuldades:situação perto da recessão,consumo(que representa 70% do PIB) em vias de estagnação,moeda em depreciação,pressões inflacionistas devido à alta dos preços do petróleo e dos bens agrícolas.A deflação no preço das casas,cerca de 2 milhões de famílias em apuros devido ao aumento dos juros nos créditos,condições no mercado de trabalho mais desfavoráveis,tudo isto conjugado com os essas altas de preços e condições de credito piores levam as famílias a travarem o consumo.

 

O FED enfrenta o dilema de, ao descer as taxas de referencia,contribuir ainda mais para a depreciação do dólar,para o estimulo às tensões inflacionistas e para ajudar instituições financeiras que deviam ir à falência por comportamento irresponsável.Mas face à situação da economia,o FED vai certamente continuar a descer taxas,as quais poderão chegar aos 3.5% em 2008(actualmente os FED funds estão em 4.25%).

 

No meio disto assiste-se a um plano coordenado de injeção de liquidez no sistema bancario pelos principais bancos centrais ocidentais  para travar o aumento das taxas no mercado interbancário,aumento esse devido a ninguém querer emprestar aos bancos(crise de confiança).Pela primeira vez,os bancos estão a pagar mais quando pedem emprestado  do que pagam ,ao endividarem-se, boas empresas da economia real…

 

Os grandes bancos europeus e americanos têm tido perdas avultadas com a crise financeira e para reporem os  seus níveis de capital começam a aceitar como accionistas os fundos soberanos detidos por governos de países como a China e Singapura ou seja capital estatal nesses bancos privados.O capitalismo anglo-saxonico já não é o que era…

 

A grande questão  é saber quão resiliente  será o mundo à desaceleração americana.Ai há lugar para optimismo.A China e a Índia já são responsáveis por mais de 40% do crescimento mundial.Se lhe somarmos o Brasil e a Rússia vemos que os chamados BRICs já respondem por 50% da expansão económica mundial.Por outro lado ,a nossa zona euro aparece como mais robusta e mais resiliente aos choques externos do que no passado.Assim,temos um crescimento económico mundial mais equilibrado e repartido entre os vários blocos,menos dependente da tradicional locomotiva americana.

 

A zona euro,passada a fase mais alta do ciclo, entrará numa fase de crescimento moderado,devido à diminuição da procura externa,à apreciação  do euro em relação ao dólar,às tensões e tendências altistas dos preços da energia e das ‘commodities’ agricolas e ao aperto nos mercados financeiro e monetário.A inflação já está nos 3% e as posições agressivas dos sindicatos  nas negociações salarias reforçam essa pressão inflacionista.

 

O BCE enfrentará uma situação em que terá de ponderar entre os riscos dos mercados financeiros,os riscos inflacionistas,os riscos de apreciação do euro e a situação da economia real e vai certamente navegar à vista e manter as taxas de referencia inalteradas durante os primeiros meses de 2008.No entanto,  isso não significa que as taxas que os clientes pagam não possam subir,devido ao grande diferencial entre taxas as directoras dos bancos centrais e as taxas de curto prazo nos mercados interbancários .Dai as injeções dos bancos centrais para reduzir esse “gap”.  Essas injecções de liquidez , que configuram empréstimos feitos aos bancos mediante a entrega por estes de activos que funcionam como garantia (colateral) da operação, não criarão em principio pressões inflacionistas se forem utilizadas pelos bancos para constituírem reservas e não para concederem credito adicional , não aumentando assim a massa monetária(os famosos agregados monetários) em circulação.

 

Para mitigar o pessimismo,talvez que lá para os fins de 2008,a crise financeira esteja digerida,a correção do preço das casas esteja terminada e o preço do petróleo esteja estabilizado. Entrar-se-ia assim em 2009 em melhor situação que a que teremos na entrada em 2008.Seriam boas noticias para o governo português em ano de eleições…

 

Por cá, como veremos no próximo artigo, aos riscos económicos mundiais somam-se em 2008 os riscos políticos das próximas eleições…

 

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