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03.01.2008 Portugal em 2008 Luís Mira Amaral |
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O abrandamento económico mundial não será favorável às nossas exportações, tal como a apreciação do euro em relação ao dólar. Esta apreciação afecta-nos não só no mercado americano e naqueles com moedas ligadas ao dólar, mas também nos mercados europeus, na medida em que estes estão abertos aos produtos americanos e aos bens e serviços de países com moedas ligadas ao bilhete verde. Tendo em conta a importância para nós dos mercados espanhol e alemão, há a acrescer a desaceleração espanhola com os riscos no mercado imobiliário e o bloqueio nas reformas estruturais na Alemanha, na sequência das divergências na coligação governamental, o que condicionará também o crescimento alemão. Portugal continuará com um crescimento modesto abaixo das tendências históricas e vai continuar assim enquanto não se resolverem os problemas estruturais. Podemos mesmo dizer que no quadro ibérico teremos: Portugal em ligeira recuperação económica mas sem conseguir a convergência estrutural com a Europa; Espanha a perder gás, com o crescimento a ser inferior a 3%, mas ainda a taxas superiores às da Europa. No terceiro trimestre de 2007, o crescimento português já desacelerou para 1,8%, devido a já se terem começado a sentir os efeitos negativos do enquadramento externo atrás referido, mas pela positiva a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) aumentou 4,2%, invertendo tendências negativas do passado. Para isso contribui não só o investimento na construção civil e obras públicas como também o investimento em máquinas e equipamentos, o qual tem um grande conteúdo de importações. É obvio que em 2008, ano de aquecimento para eleições, o Governo tudo irá fazer para dinamizar o investimento, designadamente na construção civil e obras públicas… Também o consumo público vem a subir mais do que o previsto, o que se reforçará certamente em 2008. A manterem-se essas tendências do consumo público e da FBCF, tais impulsos serão transmitidos à procura interna e ao consumo das famílias. Assim sendo, com a desaceleração das exportações e a aceleração da procura interna (e consequentemente do conteúdo importado da mesma), teremos uma economia em 2008 mais puxada pela procura interna, com um aumento do contributo líquido negativo do comércio externo para o nosso PIB. É evidente que se o enquadramento externo se agravar, mesmo a frágil retoma interna e de investimentos poderá estar em causa. Como aspecto muito positivo no nosso comércio externo, o facto de a balança tecnológica de bens e serviços ter sido pela primeira vez ligeiramente positiva por mérito das empresas. Mais uma vez o sector privado a fazer o trabalho de casa, o que não aconteceu ainda com o sector público. Na frente orçamental, o défice em 2008 ficará abaixo dos 3%, mais uma vez graças ao contributo das receitas. Com o actual Governo, a execução, quer na receita quer na despesa, tem sempre superado a proposta orçamental mas com um ‘gap’ muito maior na receita. Também face ao Programa de Estabilização apresentado em Bruxelas no início do actual governo, a despesa começa a exceder, mesmo em percentagem do PIB, o cenário então enviado a Bruxelas. Não houve até agora verdadeiro corte da despesa pública corrente, apenas moderação devido ao congelamento dos salários e carreiras na função pública, congelamento esse que obviamente estará a terminar... No mercado de trabalho, continuaremos com altas taxas de desemprego. Se bem que cada desempregado seja um drama social, tal poderá significar que estarão em curso as reestruturações na economia real, com actividades tradicionais de trabalho intensivo de baixa qualificação a serem substituídas por outras de maior conteúdo tecnológico. Aqui o Governo vai ser confrontado com a situação. Tal deveria servir de lição para os políticos que em campanhas eleitorais apenas deveriam prometer fazer as reformas estruturais, sem as quais não saímos do baixo crescimento económico e do alto desemprego, não se comprometendo com metas quantitativas para esta variável. Em suma, não tendo os nossos bancos exposição significativa ao ‘subprime’ (o nosso ‘subprime’ é o folhetim do BCP...), os riscos vêm do enquadramento externo em 2008, aos quais há que somar os riscos políticos do aquecimento para as eleições legislativas.
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