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07.02.2008 O Modelo Económico Espanhol Luís Mira Amaral |
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Pouco se tem falado dos problemas económicos espanhóis susceptíveis de nos causarem preocupações. A grande mudança no comercio externo português na sequência da adesão à então CEE, actual União Europeia, foi na relação com Espanha. A entrada simultânea na CEE dos dois países ibéricos fez com que se caminhasse para uma grande integração ibérica. Até aí os dois países estavam de costas voltadas, pois que a Espanha tinha tido a veleidade de se desenvolver fechada à Europa, enquanto que Portugal já exportava e importava da Europa por ter desde há muito percebido que, como pequena economia, precisava do mercado europeu para se desenvolver. Por via disso, a Espanha tornou-se um grande parceiro comercial de Portugal e o mercado espanhol um excelente e dinâmico mercado para nós com sectores como os materiais de construção, as rochas ornamentais e industriais e a fileira casa a aproveitarem o boom imobiliário espanhol. Com Aznar, a Espanha controlou as finanças públicas. A situação das finanças públicas tem permitido aos governos espanhóis um grande estimulo keynesiano à economia por via da despesa e do investimento público, coisa que nós não podemos fazer. Acresce a isso que sendo a Espanha uma economia maior e portanto naturalmente mais fechada que a portuguesa, os impulsos da despesa escoar-se-ão menos para o exterior que no caso duma pequena economia como a portuguesa, o que significa que esses impulsos conseguiam mais efectivamente dinamizar a economia nacional, em vez de dinamizarem as dos parceiros, como poderá acontecer mais em Portugal... A registar também a grande cumplicidade entre o Governo espanhol e os empresários e a opacidade dos concursos públicos em Espanha que faz com que sejam sempre as empresas espanholas a ganharem, como os nossos empresários de construção civil bem sabem. Essa cumplicidade permitiu ainda construir grandes grupos na banca, na energia, nas telecomunicações e na construção civil. Por outro lado, o afluxo de capital alemão e nórdico para casas de férias tem permitido alimentar a bolha imobiliária espanhola criada na sequência do euro, e é essa bolha que ameaça agora rebentar, com consequências negativas para as nossas vendas em Espanha a nível geral, pois acaba o efeito riqueza que os espanhóis sentiam por verem o preço das casa sempre a subir, o que lhes afectará o consumo, e a nível sectorial. Mas se olharmos para o conteúdo tecnológico e para a competitividade do sector dos bens transaccionáveis, vemos que a Espanha não está muito melhor que nós, o que poderá levar à conclusão que a Espanha é um gigante com pés de barro. Uma boa imagem da falta de competitividade espanhola no contexto do euro é o seu défice externo em que Espanha ombreia com os EUA e Portugal nos maiores défices em percentagem do PIB. Aqui nos défices é curioso referir a situação do défice externo e défice público dos três países do “Medclub”. A Espanha tem um problema económico sério com o défice externo mas não tem um problema de finanças públicas. A Itália tem um sério problema de finanças públicas mas não tem um problema económico pois não tem défice externo significativo, Portugal tem os dois problemas, contribuindo as nossas finanças públicas para o nosso problema económico... Por outro lado, a Espanha tem tido crescimentos impressivos do PIB, à custa do consumo induzido pelo tal efeito riqueza do boom imobiliário e do influxo de mão de obra emigrante de baixa qualificação para trabalhar no sector imobiliário, no que será um factor de produção de baixa produtividade. Por isso é que quando vimos a evolução do PIB per capita, o crescimento espanhol não será tão impressivo e já se aproxima mais do português. Em suma, no “down-side”, a dependência espanhola do betão vai levá-la a um arrefecimento económico, a questão é se será um “hard” ou “soft landing”. Más noticias para nós. No “upside”, o facto dos grandes grupos espanhóis com a sua forte presença internacional, nomeadamente na América Latina, estarem menos dependentes do mercado doméstico, minimizará esse efeito negativo para os espanhóis. |
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