28.02.2008

O Valor Inestimável da Confiança

Nuno Fernandes Thomaz

1. Não encontro na minha memória outro caso em que todos os principais intervenientes tenham agido de forma pouco condizente com as suas responsabilidades, quer institucionais quer pessoais.

Refiro-me, obviamente, ao “caso Millennium BCP”.

Até há pouco tempo o BCP era considerado o “case study” de maior sucesso empresarial nas últimas décadas em Portugal.

Nascido em tempos difíceis para a iniciativa privada, trouxe à economia portuguesa a afirmação de uma forte capacidade empresarial e ao sistema financeiro um paradigma de inovação de que a banca, então pública, estava muito carecida.

Pois em pouco mais de um ano o “case study” de sucesso virou um “case study” de insucesso e, pior, um processo de consequências inquestionavelmente graves para o sistema financeiro, para a iniciativa privada e para o país.

2. O mais elementar respeito pela presunção de inocência obriga a não antecipar culpas antes de elas serem devidamente apuradas por quem de direito.

Mas o mais elementar conhecimento do funcionamento da justiça em Portugal - responsável pela condenação nos jornais antes do julgamento pelos tribunais - aconselha a antecipar as principais consequências.

Vejamos quais.

3. O sistema financeiro foi, de todos os sectores, o que mais profundamente se reestruturou e mais rapidamente se modernizou.

Em poucos anos, as instituições financeiras - com realce para a banca - desenvolveram-se e consolidaram-se por meio de uma progressiva sofisticação de produtos e serviços, criados em benefício indiscutível dos seus clientes, tanto pessoas como empresas.

Clientes esses que retribuíram aos bancos o mais importante dos sentimentos em economia, aquele que governo algum consegue decretar: a confiança.

Queira Deus que esteja enganado, e que não se lhe sigam outros (de imediato o BPN), o caso BCP terá minado essa confiança: na transparência das operações, na verdade dos resultados, até na ética da responsabilidade.

Como se não bastasse, o caso BCP ocorre num momento de crise financeira internacional de proporções ainda incalculáveis, com situações difíceis de explicar como as perdas históricas registadas pelos maiores bancos mundiais - e episódios como o da Societé Générale, ainda mais difíceis de acreditar que de explicar.

4. Também a iniciativa privada sai beliscada do caso BCP.

Acusada publicamente de fraudulenta pela mais alta administração fiscal, ameaçada criminalmente por operações “Furacão” e quejandas, acusada de lucros excessivos por quem mais se deveria preocupar com os prejuízos excessivos de algumas empresas públicas – a iniciativa privada vive tempos de dificuldade.

O caso BCP tem todos os ingredientes necessários a uma mediatização interessada em vender os “escândalos” dos ricos, e a uma exploração política ditada por querelas obsoletas entre o público e o privado que a globalização já há muito enterrou.

Como se também não bastasse, a iniciativa privada tem contribuído generosamente para as suas próprias dificuldades, demonstrando uma já antiga incapacidade para se unir e falar a uma só voz, assim dando a oportunidade a sucessivos governos de a dividir para melhor reinar. 

5. Um Estado vale pelo que valem as suas instituições.

A evolução em Portugal de um estado interventor para um estado regulador é recente, tímida e incipiente - pelo que é longo o caminho a percorrer.

Nesse caminho compete às instituições regulatórias ganharem para si próprias um prestígio indiscutível, que lhes permita impor as suas decisões com independência e autoridade.

No caso BCP também as instituições regulatórias não saíram prestigiadas, particularmente o banco central, cujo governador afirmou publicamente o que - mesmo que seja verdade - não deveria ter afirmado:  que, salvo denúncia, o regulador não tem capacidade para detectar operações de semelhante gravidade.  

É sabido que a criatividade financeira viajará sempre à frente da regulação, mas se esta se deixa atrasar demasiado põe em causa a sua própria utilidade.

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