20.03.2008

Linhas de Muito Alta Tensão: Auto-estradas da Energia

José Pedro Sucena Paiva

 

Na sociedade fortemente electro dependente em que vivemos, as linhas de transporte de energia eléctrica em muito alta tensão (MAT) são infraestruturas críticas. Elas são as auto-estradas que asseguram a transmissão da electricidade – veículo da mais valiosa forma de energia.

Desenganem-se aqueles que vêem a redução do consumo de energia eléctrica como forma de combater os problemas ambientais. Isso não vai acontecer, salvo se aceitarmos uma redução brutal dos nossos padrões de vida, no limite, o ocaso da nossa civilização. Podemos e devemos ser mais eficientes, mas o melhor que conseguiremos é reduzir a taxa de crescimento (em 2007, já foi apenas de 1,8%).

A idade do petróleo poderá acabar. A idade da electricidade, essa perdurará ao longo dos tempos.

Vêm estes considerandos a propósito da recente emoção pública sobre a passagem de linhas de muito alta tensão por zonas habitadas, resultante (é o argumento forte) dos eventuais efeitos maléficos do campo electromagnético sobre a saúde humana.

As linhas aéreas de MAT têm um impacte ambiental não desprezável. Por isso o traçado das novas linhas deve ser criteriosamente escolhido, comparando-se várias alternativas. E não deverão ser autorizadas construções dentro de um corredor de segurança centrado nas linhas existentes, como sucede actualmente.

Perguntar-se-á: é preciso construir mais linhas? As que temos (cerca de 7500 km) não chegam? A sua capacidade de transporte está a ser bem aproveitada?

A necessidade de expansão da rede eléctrica de MAT resulta da necessidade de escoar a energia dos novos centros produtores (convencionais ou renováveis), do reforço da interligação com Espanha (por razões comerciais e de segurança) e da garantia da fiabilidade do serviço (em níveis superiores a 99,9%).

O efeito sobre a saúde humana das linhas eléctricas de MAT tem vindo a ser estudado e substancialmente financiado nos últimos 25 anos, sem que tenha sido encontrada qualquer associação entre a exposição ao campo electromagnético de muito baixa frequência e a incidência de doenças do foro oncológico (a leucemia nas crianças e o cancro cerebral nos adultos têm sido os principais suspeitos). Também não é possível provar o contrário – ou seja, que não existe nenhum efeito –, já que tal seria uma impossibilidade lógica.

É sabido que o campo electromagnético induz efeitos sobre o sistema nervoso central, acima de determinados níveis de intensidade. Por essa razão, existem normas internacionais que impõem limites para a exposição da população em geral e dos trabalhadores do sector (substancialmente mais elevados) ao campo magnético e ao campo eléctrico. Note-se que a epidemiologia não aponta para riscos maiores para os trabalhadores expostos por períodos longos aos campos mais intensos.

Aqueles que contestam a passagem das linhas aéreas de MAT verbalizam uma exigência simples e clara: enterrem-se as linhas. Ora, tal solução levanta várias objecções: é tecnicamente mais difícil e menos fiável; requer extensas movimentações de terra; não elimina o campo magnético à superfície; e têm um custo de investimento muito superior (1 a 5 milhões de euros por quilómetro versus 200 a 500 mil para as linhas aéreas, para os diversos níveis de tensão). Na Europa, a percentagem de linhas subterrâneas de MAT é da ordem de 1,5% (valor médio para os vários níveis de tensão) do total de linhas existentes.

O enterramento de linhas só pode ser justificado em circunstâncias excepcionais, nomeadamente em zonas urbanas onde não seja possível garantir um corredor de passagem com largura adequada, ou em áreas rurais de elevado valor estético e ambiental. Os factores a ter em conta na decisão são: os custos do investimento, a fiabilidade do serviço, os valores da propriedade nas zonas atravessadas e os níveis do campo electromagnético.

Os sobrecustos inerentes à instalação de linhas subterrâneas irão naturalmente ser incorporados nas tarifas a pagar por todos os consumidores ao longo dos anos. É mais um factor a encarecer a energia eléctrica – para além dos que são inevitáveis, resultantes da escalada de preço dos combustíveis fósseis e do desiderato de abater as emissões de dióxido de carbono para a atmosfera.

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