24.04.2008

O PIB e o Consumo de Energia Eléctrica

Luís Mira Amaral

 

Andamos muito entretidos a discutir se o famoso PIB cresce 2.2%, 2.0% ou 1.8%. Tais discussões são praticamente irrelevantes pelas seguintes razões: (1) o Produto Interno Bruto (PIB) é apenas uma estimativa da produção nacional de bens e serviços e como tal não é um número exacto, como alguns “cientistas” da economia nos querem fazer acreditar..., (2) há assim um erro estatístico no cálculo da taxa de crescimento do PIB que é superior ao intervalo da variação entre um crescimento do PIB de 2.2% e 1.8%.

 

O que nos deve pois preocupar não são estas discussões mas sim o facto de que seja um crescimento de 2.2% ou 1.8% do PIB, tal configurará sempre um crescimento económico anémico.

 

O que deveríamos perceber é que, enquanto não superarmos os nossos constrangimentos estruturais, o país não terá condições de crescer aos ritmos que todos nós gostaríamos. Portugal já não é um país de salários baixos no contexto da economia global mas está longe de ter agarrado o modelo da Economia do Conhecimento dos países mais desenvolvidos. Estamos a meio, a levar pancada dos dois extremos. E se a situação é má em termos estáticos, em termos dinâmicos ainda é pior pois começamos a ser ultrapassados por outros, designadamente novos aderentes à União Europeia.

 

O actual governo começou com inegável coragem política um caminho nesse sentido mas ainda estamos a meio da ponte e com o aproximar do período eleitoral, é óbvio que o ímpeto reformista se vai esvanecer sendo suplantado pelo instinto político de sobrevivência, com vista a ganhar as próximas eleições. É a vida, como diria um ilustre antecessor socialista do Engº Sócrates...

 

Complementarmente, tal como na Irlanda (embora por razões diversas) talvez seja conveniente começarmos a pensar no PNB – Produto Nacional Bruto e não no PIB. O PNB é no fundo a parcela de rendimento que fica no país em poder dos seus nacionais. É então fácil de perceber que com o crescente endividamento do país ao exterior (por causa do nosso elevado défice externo, o tal défice esquecido que é tão ou mais preocupante que o “mediático” défice público), vamos ter que crescentemente pagar ao exterior os encargos financeiros desse endividamento, o que implica que do rendimento gerado no país, uma parcela crescente irá para o estrangeiro para pagar esse serviço de dívida, ficando menos rendimento cá dentro à nossa disposição. Daí que o nosso PNB venha a ser cada vez menor que um PIB que já é magro... Na Irlanda tal acontecia por causa do repatriamento dos lucros das multinacionais que aí tinham investido.

 

Por outro lado, em Portugal o consumo de energia eléctrica cresce tradicionalmente mais do que o PIB, normalmente cerca de um ponto percentual a mais (por exemplo se o PIB crescesse 2%, o consumo de energia eléctrica aumentava 3%). Acontece que o consumo da electricidade em Portugal está a bater no fundo, o que é um sinal de estagnação económica. Com efeito, o consumo de electricidade no 1º trimestre de 2008 decresceu 0,5% em termos de variação anual. Mesmo considerando a correcção de temperatura (do inverno moderado que tivemos) e dos dias úteis, o crescimento corrigido de consumo de electricidade em Portugal em termos de variação anual foi de apenas 0.9% ao passo que em Espanha foi de 3.38%. Como não é de acreditar que as recentes e tendencialmente positivas medidas de gestão da procura de energia anunciadas pelo governo já estejam a produzir efeitos substanciais, o que reduziria a elasticidade do consumo de energia em relação ao PIB, deveríamos então por este indicador – altamente fiável dada a importância da electricidade na produção de bens e serviços – ter um crescimento do PIB perto de zero...

 

Assim sendo, no que toca ao crescimento do PIB para este ano, é de acreditar mais nas recentes estimativas do FMI do que nas projecções domésticas.

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