08.05.2008

Portugal "break dancing"

Jorge Pacheco de Oliveira

 

 

Um dos passes mais curiosos da “break dance” é aquele em que o executante simula andar para a frente, mas desliza habilmente para trás. Ora, quando o actual Primeiro Ministro (PM) insiste em que o país está a andar para a frente, mas os portugueses sentem a vida a andar para trás, é caso para dizer que, além do “jogging”, o actual PM abraçou decididamente a “break dance”.

 

Com efeito, um país em que se alarga o fosso entre ricos e pobres, como é o caso notório de Portugal, é um país que anda para trás, o que não deixa de ser curioso quando governado por socialistas, pessoas que se reclamam de uma ideologia de solidariedade e outros generosos sentimentos.

 

Acerca do presente retrocesso de Portugal, muitos indicadores podem ser apontados. Em artigo anterior, nesta coluna, o Eng. Mira Amaral abordou oportunamente um indicador raramente referido, o consumo de energia eléctrica, o qual revela uma das mais fortes correlações com o progresso económico, e que vale a pena retomar.

 

De facto, é universalmente reconhecido que a energia, principalmente a energia eléctrica, a mais versátil forma de energia, constitui o suporte do crescimento económico, sendo o consumo de energia per capita um dos parâmetros que melhor caracteriza o estádio de desenvolvimento de uma sociedade.

 

O autor destas linhas tem uma particular confiança neste indicador, em Portugal, porque teve o privilégio de, há quinze anos, ser incumbido pelo CA da EDP para dirigir a equipa que planeou e instalou o avançado sistema de telecontagem que passou a proporcionar leituras síncronas, com elevada exactidão, dos trânsitos de energia em todas as ligações entre a produção, transporte e distribuição.

 

Sucede que em Portugal a evolução do consumo de energia eléctrica decaiu muito bruscamente desde há três anos. Os registos mostram que entre 1998 e 2005 o consumo nacional de energia eléctrica cresceu a uma taxa média anual de 5%. Foi mais do que a média de crescimento dos nossos parceiros europeus, que é um pouco inferior a 2%, mas é compreensível que assim seja porque o consumo per capita nacional representa ainda cerca de dois terços do consumo per capita médio dos países cujo nível de vida procuramos alcançar.

 

Ora, em 2006 o aumento do nosso consumo de energia eléctrica limitou-se a 2,6%. Em 2007 apenas a 1,8%. E no decurso de 2008 o crescimento em período homólogo é praticamente nulo. O problema é que a estagnação do consumo nacional de electricidade não se verifica pelas melhores razões. O país não está a racionalizar consumos, nem a substituir a energia eléctrica por qualquer outra forma de energia.

O significado disto só pode ser um : por mais que o actual PM execute o seu número de “break dance”, o país está, desde há três anos, em franca desaceleração económica. É o tempo que leva de governação o actual PM. Coincidência? Provavelmente não. O aumento brutal da carga fiscal, incluindo as cobranças decorrentes do combate à evasão e fraude, não podia ter efeitos positivos na economia. O dinheiro na mão dos empreendedores produz mais riqueza do que nas insondáveis repartições do Estado.

 

É importante que o indicador energético seja acompanhado com atenção. E, sobretudo, que os analistas mais lúcidos não permitam que se torne um tema exclusivo da cartilha aterrorizadora dos fanáticos do “global warming”. Tarefa espinhosa num país com excessiva presença estatal, como é o nosso, em que a maioria dos técnicos com conhecimentos nesta matéria depende directa ou indirectamente de um governo sugestionável, que acredita em alterações climáticas de origem antropogénica.

 

Mas terminemos com uma palavra de conforto. Há que reconhecer e elogiar a decisão do actual PM ao lançar a construção de uma dezena de novos aproveitamentos hidroeléctricos. Até que enfim ! Só falta saber se tem coragem para reverter uma das mais infames decisões neste domínio, que foi o cancelamento da barragem de Foz Coa, um empreendimento de vital importância para a exploração e regularização da cascata do Douro nacional.

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