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12.06.2008 Mudança Climática e Política Energética José Pedro Sucena Paiva |
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Muitas pessoas andam preocupadas com o futuro do planeta. Estas são as que se preocupam com o futuro, já que a grande maioria preocupa-se, sim, mas com o presente.
A mudança climática tornou-se uma questão ideológica e política: uma corrente (maioritária) enfatiza a influência da actividade humana; outra postula a preponderância dos fenómenos naturais.
Os combustíveis fósseis – carvão, petróleo, gás natural – têm sido uma bênção para a humanidade: são fontes de energia concentrada, armazenada a partir da energia solar, ao longo de milhões de anos, por força de mecanismos geológicos. Desde o início do século XIX, que estamos a gastar este legado a um ritmo frenético e sempre crescente – um verdadeiro festim. Já se detectam sinais de alguma dificuldade de a oferta satisfazer (com folga) a procura, o que se traduz num aumento continuado de preço. A juntar ao pico da produção mundial de petróleo num futuro próximo[1], a evidência científica actual aponta com substancial clareza o contributo do dióxido de carbono (CO2), resultante da queima dos combustíveis fósseis, para o aquecimento global – por via do efeito de estufa, que reduz a emissão das radiações infravermelhas da terra para a atmosfera.
Está assim a humanidade confrontada com um duplo problema, o qual se vai intensificar nas próximas décadas: por um lado, progressiva escassez e consequente escalada de preço dos combustíveis fósseis; por outro lado, aquecimento global do planeta com consequências que ainda não conseguimos abarcar na sua totalidade, mas que se afiguram disruptivas[2].
Aqueles que negam a relação entre a concentração do CO2 na atmosfera e a temperatura do globo advogam que a limitação mandatória das emissões deste gás (via uma taxa ambiental ou um mercado de emissões) significa fazer doer para nada: a economia resulta menos competitiva devido ao aumento do custo da energia, sem que a mudança climática (a existir) fique resolvida. O problema resolver-se-á, argumentam, com recurso a novas tecnologias de apropriação de recursos energéticos (de preferência concentrados), e à sua utilização mais eficiente.
Os que verberam a prodigalidade energética dos humanos, propõem a expansão acelerada das energias renováveis e a promoção vigorosa da eficiência energética. Daqui resultará o aumento da segurança do abastecimento e a redução das emissões do dióxido de carbono – com custos aceitáveis, quando confrontados com os que resultariam do aumento descontrolado da temperatura do globo. O problema não se conforma, contudo, com soluções simplistas. As energias renováveis não são armazenáveis (com excepção da hídrica com albufeira), são voláteis (isto é, podem não estar disponíveis quando são necessárias), e dada a sua baixa densidade, exigem instalações de grandes dimensões físicas. Elas são usadas maioritariamente na produção de electricidade, sendo que a sua volatilidade exige equipamento de reserva e de armazenagem, que as torna menos competitivas.
Quanto à eficiência energética, medida pelo rácio entre o consumo de energia per capita e o PIB per capita (intensidade energética), pode ser melhorada quer pela redução do numerador quer pelo aumento do denominador. Recentemente, o Governo anunciou uma meta de redução de 10% do consumo de energia até 2015. Contudo, tal só será possível se aceitarmos uma redução brutal da nossa capacidade produtiva e dos nossos níveis de conforto e bem-estar. Sendo o consumo de energia per capita português (2,53 tep[3] em 2005) dos mais baixos da União Europeia (média: 3,69 tep em 2005), não pode ser um objectivo político reduzi-lo ainda mais.
Poderá contudo (pelo menos em princípio) reduzir-se a intensidade energética. Admitindo uma taxa de crescimento médio anual do PIB de 2%, então este crescerá cerca de 15% até 2015. Uma redução da intensidade energética de 10% significa que o aumento do consumo de energia se quedará pelos 5% no mesmo horizonte, o que corresponde a uma taxa de crescimento anual de 0,7%. Dado que este objectivo é muito exigente e dificilmente será cumprido (salvo numa situação de estagnação económica), e que a opção nuclear foi afastada, foram já (discretamente) licenciadas oito centrais eléctricas a gás natural com uma potência total de 3200 MW – o que ampliará de forma desfavorável a nossa dependência deste combustível fóssil. [1] Recentemente, por exemplo, foi anunciado que a produção de petróleo na Rússia terá passado já pelo seu pico (10 milhões de barris diários). [2] O aquecimento global poderá beneficiar alguns países e regiões com latitudes setentrionais (por exemplo, a Grã-Bretanha poderá tornar-se um grande produtor de vinho). [3] Tonelada equivalente de petróleo. |
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