|
|
27.11.2008 Portugalidade e a (i)lógica industrial Milton de Sousa |
|
|
Estava já bem instalado no avião quando ouço o anúncio de que o voo estava atrasado. Enquanto deslizava pelas frases soltas dos títulos da revista UP da TAP, resolvi parar na página 142. O título: “Nunca um voo longo pareceu tão curto”. Enquanto o artigo deambulava pelos novos benefícios dos clientes de classe executiva, reparei em duas frases tão simbólicas da nossa sina. A primeira frase contava assim: “Na TAP Executive da nova frota A330 as cadeiras oferecem o expoente máximo em conforto, aliado à elevada fiabilidade da tecnologia alemã”. Já aqui senti o desgosto inicial que logo se tornou numa certa revolta quando, a dada a altura, o texto continua com: “Apostando na portugalidade como factor diferenciador, a TAP oferece-lhe uma refeição requintada e genuinamente portuguesa, com três pratos quentes à escolha”. Num país que tenta mudar a sua imagem internacional, enquanto tecnologicamente evoluído, aqui encontro, num avião de uma empresa pública que transporta milhares de pessoas diariamente de todo o mundo, um texto em português e devidamente traduzido para inglês, que reforça perante todos a nossa incapacidade tecnológica para fazer uma “miserável” cadeira de avião. Certo é que a cadeira é capaz das coisas mais fantásticas, mas acredite o leitor que há em Portugal tecnologia e cabeças suficientes para conceber e produzir tal miraculosa cadeira. No trabalho que tenho feito com várias empresas nos últimos anos foi-me possível constatar o quão difícil é para uma empresa portuguesa vender tecnologia em Portugal. Num país com um curto mercado, as empresas vêm-se desde cedo obrigadas a internacionalizar os seus negócios. O modelo de Uppsala para a internacionalização, assente no conhecimento e aprendizagem incremental, é assim frequentemente difícil de concretizar para uma empresa de base tecnológica portuguesa. Torna-se então praticamente impossível enquanto não houver uma lógica industrial nacional que reforce a competitividade mútua através de relações não só comerciais como de colaboração. Para isso acontecer, tal como na Alemanha, Estados Unidos e outros países, torna-se necessário acreditar e ter orgulho na nossa capacidade e tecnologia. Obviamente que orgulho não chega. Realçamos três factores essenciais para estimular a criação desta lógica industrial nacional: 1- 1 - Capacidade de congregar esforços e vontades em projectos conjuntos entre empresas e entidades científicas e tecnológicas; 2- 2 - Condições estruturais e linhas de apoio à criação de pólos de cooperação industrial; 3- 3 - Promoção da aquisição de tecnologia portuguesa (sem que isso signifique proteccionismo e distorção do mercado). O primeiro factor passa claramente pelos empresários, associações empresariais e entidades do Sistema Científico e Tecnológico. Importa ter pragmatismo e uma orientação para o mercado acima de interesses e questões pessoais. Relativamente ao segundo factor, bem ou mal existem mecanismos de apoio no âmbito do QREN que permitem estimular este tipo de estruturas. Será no último factor que nos parece que o Estado poderá ainda ter um papel mais activo. Desde logo sabendo comunicar com o tecido industrial português as oportunidades que poderão surgir para o desenvolvimento de projectos de base tecnológica, nomeadamente ao nível do sector do estado e das empresas públicas. Por outro lado, promovendo a necessidade de apostar na tecnologia portuguesa internamente (uma espécie de “Vá para for a cá dentro” mas numa lógica tecnológica e industrial). O orgulho e a aposta na nossa tecnologia terão uma evolução necessariamente gradual, mas fundamental se queremos criar uma imagem forte no exterior. Haverá concerteza cada vez mais exemplos dessa aposta, mas parece-me, tal como demonstra o meu pequeno exemplo inicial, que há ainda muito caminho a percorrer. Temos que saber apostar na portugalidade da tecnologia e das tradições (que são compatíveis, como demonstra o caso da Califórnia). Ainda assim, se tivesse que escolher, bem que eu preferia que a TAP anunciasse uma cadeira tecnológica portuguesa e uma refeição com uma “Bockwurst” e uma boa cerveja alemã! |
||
|
||
|
Comentários: |