18.12.2008

Vencer a Crise

Vítor Bento

 

 

Como se esperava, a crise económica mundial já mergulhou praticamente todas as economias ocidentais numa recessão. O problema é sério e não se sabe até onde poderá ir. Neste contexto, onde a incerteza sobre o futuro é a única certeza que temos, não faz  sentido discutir décimas, nem professar infundados optimismos que, não resistindo ao confronto com a realidade acabarão por criar mais desalento do que esperança. Mas porque a situação é grave e prevalece a ansiedade entre as pessoas – o que favorece a auto-concretização das expectativas dominantes – também não faz sentido competir publicamente pela pior profecia do futuro.

 

Políticos, analistas e “opinadores” em geral, deverão assumir com realismo a gravidade da situação, manter a serenidade, transmitir esperança e empenhar-se, no terreno acessível a cada um, para que a recessão se não aprofunde e não prolongue demasiado. Porque, como todas as crises, esta é superável, havendo apenas que concentrar esforços em minimizar os seus estragos.

 

No caso português, devemos ser capazes de balancear duas grandes preocupações: minimizar os estragos da actual crise internacional e, ao mesmo tempo, evitar que os remédios utilizados agravem a crise estrutural com que nos debatemos há cerca de uma década, e que, sendo especificamente nossa, continuará a afligir-nos depois de aquela passar. O que não será fácil, sobretudo quando, perante três disputas eleitorais no próximo ano, será forte a tentação de aliciar materialmente o eleitorado, usando a crise como desculpa.

 

Esta crise, que é global, necessita de estímulos públicos para que a procura não entre numa perigosa espiral contraccionista, com graves efeitos na produção, no rendimento e no emprego. Redução de taxas de juro e despesa pública – sobretudo de investimento – são as receitas de manual para a situação e devem ser rapidamente implementadas. Transferências de rendimento ou redução de impostos directos têm uma menor eficácia esperada, por não ser seguro que se transformem em acréscimo de despesa privada.

 

Mas, no caso português, há que moderar as expectativas com o estímulo público, dado que a pequena dimensão e a grande abertura da economia transferirão muito desse estímulo para o exterior, reduzindo o seu efeito interno. Já Keynes notava isso mesmo quando escreveu, na secção III, do capítulo 10, da sua Teoria Geral: “Portanto, uma dada variação do investimento será associada a uma menor variação do emprego num país onde o comércio externo [entenda-se importações] desempenhe um papel maior...”. E a mesma ideia foi recentemente lembrada pelo agora muito escutado, Krugman.

 

Em grosseiras contas de “costas de envelope”, o “multiplicador keynesiano” na nossa economia deverá rondar 1.3 (contra perto de 3, se esta fosse fechada). Assim e sabendo que importamos 40% do PIB, um estímulo fiscal dará um ganho de PIB de apenas cerca de 30% sobre o valor investido, e um acréscimo de défice externo correspondente a 50% desse mesmo valor (40% x 1.3). E não nos podemos esquecer de que este défice continua a ser a mais séria ameaça sobre a nossa economia, agora ainda mais premente, dada a escassez de financiamento externo. Por isso, o estímulo que nos será mais favorável – quer para o crescimento e emprego, quer para o défice externo – é o que nos vier do exterior (sobretudo da Alemanha e de Espanha), através das exportações.

 

Só ao nível europeu existe dimensão económica suficiente para internalizar os efeitos de um estímulo keynesiano e só a esse nível faz sentido actuar. Por isso foi bom que a Europa tenha finalmente conseguido acordar numa reacção coordenada. Espera-se agora a sua implementação e que o BCE, na parte que lhe compete, recupere o tempo e o impulso que perdeu até aqui.

 

Internamente, o pacote anunciado pelo Governo, no âmbito daquela reacção, e avaliado apenas pela generalidade que se conhece, parece razoável, embora deva levar o défice para além do que parece prudente. É que, em cima do pacote, devem deixar-se actuar os estabilizadores automáticos, pelo que, tudo somado, o défice de 2009 deverá ir para além dos 3% do PIB. E teria sido também mais prudente esperar pelo anúncio dos pacotes dos maiores países. Portugal nada ganha em ir à frente.

 

Espero é que se fique por aqui e se perceba que as “grandes obras”, sem justificação económica, pouco efeito terão na amenização desta crise, mas, passada esta, a sua factura ficará a pesar na outra crise, só nossa, que por cá continuará.

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