29.01.2009

A Crise Financeira em Resumo

João Moreira Rato

 

 

Simplificando quem entrega aos bancos o seu dinheiro com a expectativa de o poder reaver amanhã e sabe que os bancos emprestam a dez anos está a confiar no sistema. Como quando se anda de avião apesar de não se ter ideia de como a máquina funciona. E com razão, porque estatisticamente os aviões são bastante seguros, tal como os bancos. O problema surge quando o sistema financeiro esgota esse capital de confiança. Normalmente esta perda de confiança surge quando os credores de curto prazo dos bancos começam a duvidar da qualidade dos seus empréstimos. A perplexidade em relação à qualidade do balanço do sistema financeiro global foi-se acumulando gradualmente desde o verão de 2007. A incerteza começou com os empréstimos garantidos por casas nos Estados Unidos, mas como o mecanismo de endividamento com base na aquisição de casas não ocorreu só nos Estados Unidos, o processo generalizou-se a outros países e mais tarde a empréstimos com outro tipo de garantias. Esta perda de confiança nos valor dos empréstimos acumulados pelos bancos culminou em Setembro de 2008 com a falência da Lehman Brothers. O processo culminou na tentativa pelos credores de curto prazo em tentar recuperar o seu dinheiro o mais rapidamente possível. Só não se viram filas à entrada de bancos em Outubro passado porque os governantes rapidamente garantiram os depósitos.

 

Para que os bancos possam voltar a emprestar será necessário que a sua estimativa de perdas seja menos incerta, que estejam confortáveis com o valor das garantias oferecidas (casas) e bem capitalizados. Só nestas condições toda a liquidez injectada pelos bancos centrais e os fundos obtidos através das garantias governamentais poderão chegar a economia. Este processo não funciona por decreto tal como um avião com problemas mecânicos não poderá voar mesmo que o presidente da companhia aérea assim o decida. Este processo será tanto mais lesto quanto mais rapidamente as perdas forem assumidas (e não adiadas) e quanto mais rapidamente os bancos sejam re-capitalizados.

O problema surge quando à medida que os activos reais perdem valor, os bancos continuam a preferir não emprestar tendendo a acentuar a perda de valor das casas e assim consecutivamente. Para se travar este processo, poderia ser recomendável retirar os empréstimos de má qualidade dos bancos e dividir o sistema entre bancos “maus” e bancos “bons”. Sendo que os bancos “bons”, limpos dos erros do passado, estariam em condições de voltar a emprestar.

 

Se o capital existente não for suficiente para cobrir as perdas (insolvência) ou o montante destas seja muito incerto terá de ser o estado a capitalizar o sector. Isto terá de ocorrer necessariamente no caso do banco “mau”. O risco adicional, caso não se isolem os activos “bons” dos “maus”, é que o capital e a liquidez obtidos sejam utilizados para adiar perdas e para a reestruturação de empréstimos sem futuro, como dizem os ingleses: “throw good money after bad money”. Kashyap e Hoshi em “Japan’s Economic and Financial Crisis: An overview” identificam este problema como a principal razão para que a economia japonesa tenha estagnado desde 1990: “...the lack of lending by the healthy banks makes sense because these banks see no point in lending to firms that will have to compete against the zombies that are kept on life support by the sick banks.” Será crucial não utilizar o capital público e as garantias do estado para manter em actividade empresas ou indivíduos insolventes. Países com deficits externos elevados não o poderão fazer, já que o exterior não quererá financiar, ad eternum, um sistema financeiro com pouco potencial de crescimento. A torneira do financiamento externo acabara por encravar. Quanto mais depressa se lidar com os problemas do sistema financeiro e com maior transparência em relação a perdas e necessidades de capital, mais rapidamente voltaremos a ter bancos saudáveis e com força para voltar a emprestar dinheiro. Uns aviões ficarão a enferrujar em terra enquanto outros voltarão a voar sem razões para ansiedade.

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