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12.02.2009 Pedro Ferraz da Costa |
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Não é muito seguro pensar que os governantes privilegiam o longo prazo. E em situação de crise ainda menos.
O que é previsível é que ignorem riscos de médio e longo prazo, que ignorem sintomas de crise mesmo quando observadores mais independentes já os detectam, e que depois de reconhecerem a crise, passem a prever uma recuperação rápida. A próxima legislatura já vai ser ... a subir.
A posição do governo português em relação à crise desde o Verão de 2007 até Janeiro de 2009 passou por várias fases: primeiro ignorou os riscos, depois afirmou que a zona euro não seria afectada para, mais tarde, afirmar que a consolidação orçamental, que pressupõe ter feito, nos colocava ao abrigo da crise ou que nos daria a folga necessária para a fazer passar ao lado. O Orçamento de 2009, com os erros derivados duma maquilhagem apressada e desastrosa de dados, enquadrava-se num cenário macro-económico irreal.
Em Janeiro de 2009 entrou numa nova fase: estamos em recessão, mas sairemos já em 2010.
Infelizmente esta visão desfasada e errada das previsões tem consequências nas medidas a tomar. E pode significar tomar decisões perigosamente erradas.
O principal erro prende-se com a duração da crise e com o que deveria ser feito para dotar o País com uma estrutura mais preparada para tirar partido da recuperação económica mundial quando esta ocorrer.
A análise de crises financeiras anteriores, bem menos complexas porque regionais ou só até nacionais, mostra que a recuperação do crescimento económico, dos preços do imobiliário e das acções, e a redução do crescimento da dívida pública e do desemprego demoram entre 3 a 6 anos, com o desemprego a ser sempre a variável de recuperação mais lenta.
No caso português, a crise financeira mundial abateu-se sobre uma crise interna grave e ignorada, ou escondida, pelos diversos responsáveis governamentais. Praticamente não crescemos desde 2000, deixámos os salários reais crescer a um ritmo superior ao da produtividade desde 1996 – os salários nominais cresceram desde então mais de 50%, e o desequilíbrio da balança corrente atingiu níveis insustentáveis. Alguma consolidação orçamental foi obtida quase exclusivamente à custa do aumento da carga fiscal e da redução do investimento público, atingindo a carga fiscal níveis semelhantes aos da Alemanha, o que é manifestamente esmagador para uma economia com o nível de desenvolvimento da nossa.
A baixa das taxas de juro derivada da entrada no euro deveria ter sido contrabalançada por uma política orçamental exigente.
O desequilíbrio da balança comercial evidencia bem a queda da nossa competitividade externa, independentemente da pressão adicional causada pela subida abrupta do preço do petróleo. E o nosso desequilíbrio externo evidencia que vivemos muito acima das nossas possibilidades.
Actualmente o seu financiamento tornou-se mais caro e mais difícil e pode até vir a ser impossível. É por isso muito assustador ver como o governo, sem reconhecer a crise interna e as dificuldades derivadas do desequilíbrio externo e das limitações ao seu financiamento, se prepara para injectar dinheiro em políticas dispersas no pressuposto de que a recuperação virá em 2010.
E se não vier? E se os mercados não aceitarem dívida de Portugal, Espanha, Grécia, Itália e Irlanda?
É um cenário que já é discutido, tanto nos gabinetes internacionais como na imprensa, mas cuja discussão é ignorada em Portugal, salvo honrosas e raras excepções que não chegam à opinião pública.
À opinião pública só chegam notícias de desemprego que justificam por antecipação todos os apoios governamentais, para os quais já se constituíram as filas do costume.
Ter um nível de consumo equivalente ao de 1996 – menos um terço do que actualmente – seria, apesar de tudo, aceitável e resolveria quase todas as dúvidas dos nossos financiadores. Mas não há qualquer plano para demonstrar que teremos de chegar a um nível que se situará, irremediavelmente, entre esse e o actual.
O ajustamento que teremos de fazer devia levar-nos a começar desde já a preparar um conjunto de medidas equivalentes às das cartas de intenções assinadas com o FMI.
Não sei qual é a equipa que as terá de negociar, mas duvido que seja a actual. |
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