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26.03.2009 Pedro Ferraz da Costa |
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1. Passei alguns dias na Alemanha e na Suíça, em viagem de trabalho, com um fim de semana pelo meio, em que contactei mais de 20 pessoas de todo os níveis sociais, de actividades muito diferentes e com níveis de informação económica muito diversas. Encontrei traços comuns: estamos a passar uma fase difícil, não vamos deixar abater-nos pelo pessimismo e vamos conseguir ultrapassar as dificuldades; ninguém se referiu ao Governo, a eleições próximas, aos problemas dos vizinhos, nem introduziu na conversa qualquer consideração ideológica sobre necessidade de mudar o sistema, isto é, os outros, para sair da crise, e ninguém se considerou injustamente tratado pela crise, apesar de serem dois países notoriamente bem organizados, com competitividade externa conseguida com moderação salarial e horários mais alargados do que há alguns anos atrás, níveis de poupança elevados e políticas orçamentais responsáveis. Consideram ser sua responsabilidade individual responder aos desafios, mesmo que isso implique mudanças difíceis ou incómodas.
2. Não podemos deixar de constatar que temos, em Portugal, um problema de atitude perante desafios e dificuldades, na escola e no trabalho. Valorizamos muito o que nos custa e pouco o que podemos obter, justificando nem começar. A sorte e o azar tendem a ser a explicação para o sucesso e o fracasso. Esperamos que “eles” resolvam os problemas. E eles são... os pais, os chefes, os governantes, a quem se exige ou reivindica tudo a que se acha ter direito. No entanto, em sistemas diferentes ou entregues a si próprios, em situações muito adversas, os portugueses saem-se muito bem, sendo sempre considerados dos melhores entre todos, em qualquer país onde estudem ou trabalhem. 3. É indiscutível que o nosso sistema social, económico e político premeia pouco o mérito e o esforço individual, pratica o compadrio a todos os níveis e selecciona os piores, com destaque na actividade política, premeia os incapazes e deixa impunes os prevaricadores, contribuindo assim para a criação dum clima de desânimo e de justificação antecipada para a pouca vontade de lutar por melhores resultados. Foi assim possível conviver com um longo período em que, apesar de apoios externos de grande dimensão, o nosso País abandonou o objectivo de se aproximar do desenvolvimento do resto da Europa. Como se os nossos parceiros europeus, tivessem obrigação de nos garantir, sem esforço nosso, o que eles obtiveram com esforço deles. A triste verdade é que o núcleo duro europeu considera que já nos ajudou muito e que poderíamos fazer muito melhor. Que consumimos demais para o que produzimos, que gastamos muito em obras de rentabilidade mais do que duvidosa, a que chamamos investimento, e que poupamos de menos. 4. Os nossos bancos financiaram habitação a 25 anos com empréstimos externos a 2 e 3 anos, recorrendo ao mercado grossista de crédito que corre o risco de se fechar. Também as empresas se endividaram para níveis que já ultrapassam 100% do PIB, praticaram políticas salariais insustentáveis, perderam competitividade externa, numa quase indiferença perante o acréscimo de competição que a abertura a Leste da UE significou, sabendo que Portugal seria o país mais afectado, e também perante a globalização que não foi um fenómeno súbito. O Estado, por seu lado, não aproveitou a enorme descida das taxas de juro, com o euro, para equilibrar as suas contas, deixando crescer as despesas correntes, nomeadamente com pessoal, e absorvendo cerca de 85% dos impostos com transferências sociais, sem sequer garantir que o aumento das transferências para a educação, a saúde ou a segurança social contribuíssem para a redução dos níveis de pobreza, que nos devem envergonhar. 5. A sobreposição da crise global aos nossos problemas próprios vieram apressar o fim do modelo em que vivemos. E nesse sentido a crise é bem vinda. Sem ela continuaríamos a empobrecer tristemente, mesmo que nem todos se apercebessem dessa inevitabilidade. Com ela, cria-se uma exigência de falar verdade, de encarar a necessidade de mudar e assumir responsabilidades, de justificar a contribuição de cada um para a solução ou para os problemas. Esta exigência ajudar-nos-á a encontrar uma vocação realista num Mundo que não deixará de se caracterizar por concorrência crescente e pela vitória dos que se preparam e se esforçam sobre os que não sabem ao que vão. |
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