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02.04.2009 Pedro Ferraz da Costa |
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Escrevi nesta coluna que a crise é bem vinda pois que “sem ela continuaríamos a empobrecer tristemente”. Ao dizer venha a crise, pretendo afirmar várias coisas: i) a probabilidade já é suficientemente elevada para ser um cenário a estudar dentro da regra básica de decisão de minimizar o risco maior – o da rotura de financiamento à economia. Perante cenários de probabilidade de ocorrência desconhecida, deve minimizar-se o risco maior e é desaconselhável apostar na ocorrência do menos desagradável, tipo “não há-de ser nada”; ii) face à rotura é preferível tomar acções preventivas com um plano, do que actuar em situação de emergência com roturas graves de confiança; iii) medidas excepcionais serão melhor aceites pelos nossos parceiros se constituírem um exemplo para países com dificuldades semelhantes.
A pergunta que se fará diz respeito à probabilidade da rotura. A esse respeito recordo: - a crise tem-se mostrado maior na Europa do que nos EUA e o BCE tem evidenciado uma posição dogmática e lenta, menos convincente que o FED; - o Tratado de Maastricht não permite ao BCE monetarizar os déficits excessivos dalguns países, nem prevê mecanismo para que uma economia da zona euro possa usar medidas excepcionais para reduzir déficits externos insustentáveis; - Os países da UE não-membros do euro, constituem um problema adicional, sujeitos a uma disciplina própria, mas sem estabilidade cambial. E já caíram 4 Governos; - a coordenação da política económica na Europa é, no mínimo, deficiente e o papel da Comissão quase inexistente; - os bancos europeus podem vir a revelar-se ainda mais “alavancados” que os americanos e as bolsas dos países em situação mais difícil, com quedas entre 70 a 85% do seu valor, prenunciam uma depressão; - não existe entidade monetária europeia com autoridade e recursos suficientes para garantir a solvência dos seus membros e, consequentemente, da sua moeda comum; - ao deixar que vários países divirjam significativamente em termos das suas balanças correntes, criaram-se perfis de risco-país muito diferentes, quando antes se pensava que este teria até deixado de existir; - por outro lado, o realinhamento cambial, o mais importante mecanismo de correcção de desequilíbrios da balança corrente, deixou de existir. Todas estas razões fazem com que os desequilíbrios externos tenham que ser financiados pelos mercados financeiros e não por instituições centrais. E os mercados começaram a discriminar fortemente contra a dívida dos países com desequilíbrios elevados. No limite esses mercados fecham-se e não renovam financiamento externo, muito menos permitem aumentá-lo.
Se Portugal não fosse membro do euro já teria desvalorizado, acompanhado pela Irlanda, Grécia, Áustria e outros, como o Reino Unido que já desvalorizou a libra em 30%. Isso teria causado alguma inflação, uma quebra marcada do nível de vida, mas também um estímulo indispensável à economia e um progressivo reequilíbrio da sua balança. Não sendo esse o caso, quais são as opções? Há várias hipóteses: - emitir mais dívida pública para financiar os bancos e os programas de estímulo à economia. Mas é duvidoso que os mercados financeiros acreditem na capacidade de cumprir obrigações adicionais e se acreditarem, o spread será muito alto, com consequências devastadoras na economia; - esperar que a França e a Alemanha paguem a factura dos pequenos países. Mas é quase politicamente impossível que o façam; - esperar pela ajuda do FMI aos países do Leste Europeu, o que tornaria mais fácil colocar dívida dos pequenos países do euro. Esta hipótese pode ficar esclarecida na cimeira G20; - esperar que o BCE compre dívida dos países em dificuldade, com a vantagem adicional de fazer baixar o euro e assim combater a deflação e estimular o crescimento. Pressupõe o acordo de muita gente. - sair do Euro. Embora a acentuada desvalorização cambial permitisse regressar ao crescimento, a medida produziria sacrifícios difíceis de sustentar politicamente, pela sua dimensão social e pela inversão de expectativas criadas pela entrada no euro. Confrontando estas 5 hipóteses com o comunicado final da Cimeira de Londres, ficaremos eventualmente a conhecer melhor o nosso futuro. Mas devemos sobretudo pensar, rapidamente, no que fazer a seguir. |
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