23.04.2009

Portugal e Espanha: A mesma luta?

Luís Mira Amaral

 

 

O MED CLUB, que representava os países com alto risco de finanças públicas na Zona Euro, foi agora rebaptizado pelos anglo-saxónicos para PIGS e em coerência deverá agora querer dizer Portugal, Italy, Ireland, Greece and Spain.

 

Já antes da actual crise se percebia que a Itália tinha um sério problema de finanças públicas mas não tinha um problema de défice externo (que representava apenas 3% do PIB), e que a Espanha tinha um grave problema externo (défice externo de cerca de 10% do PIB) mas não tinha problema de finanças públicas pois Aznar tinha-as deixado equilibradas. Portugal tinha os dois problemas, finanças públicas e desequilíbrio externo. Portugal ombreava com a Espanha e com os EUA em termos de maiores défices externos em percentagem do produto. Já no artigo escrito nestas colunas a 7 de Fevereiro de 2008 sobre “O Modelo Económico Espanhol” nós antecipávamos os gravíssimos e actuais problemas da economia espanhola e os consequentes efeitos negativos sobre as nossas exportações, devido à grande importância do mercado espanhol para os nossos produtos. Dizíamos já na altura que Espanha era um gigante com pés de barro, com um crescimento económico puxado pelo consumo, cujo “driver” era o efeito riqueza que os espanhóis sentiam por via da bolha imobiliária, e também pelo influxo de mão-de-obra estrangeira indiferenciada que vinha para as obras. Depois, no PIB per capita, devido a esse “apport” de mão-de-obra ser de baixas qualificações, a diferença do seu crescimento para a evolução do PIB per capita português não era tão impressiva. Chamávamos também à atenção para o facto de, nos bens transaccionáveis, a competitividade da oferta espanhola não ser muito diferente da nossa, pois que a indústria espanhola também não tinha incorporado conhecimento intensivo e, como era evidente no sector automóvel, dependia de tecnologia alheia. Um défice externo de 10% do PIB indicava aliás um grave problema de competitividade do sector privado espanhol já que, com as finanças públicas equilibradas, o sector público não contribuía em despoupança para o défice externo que é, no fundo, sempre um défice de poupança nacional face ao investimento.

 

A rápida subida de desemprego e o aumento espectacular do crédito mal parado na banca espanhola confirmam a vulnerabilidade espanhola ligada à excessiva dependência do imobiliário.

 

Agora, o “camarada” Zapatero, naquela lógica tipicamente socialista de derramar dinheiro público sobre os problemas, está a derreter as finanças públicas equilibradas que tinha herdado de Aznar. Tenho dito aos meus amigos que não vale a pena baixar cá o IVA por causa das diferenças com Espanha pois esta, com a derrapagem das finanças públicas, irá ter que o subir… Assim, depois das semelhanças no défice externo, vamos convergir também com Espanha nas finanças públicas…

 

No meio disto, Zapatero substituiu na Economia e Finanças um respeitado Pedro Solbes, um homem que já tinha sido Comissário Europeu das Finanças, mas que, afinal de contas, não tinha o suficiente “mau” feitio para se impor (ou opor) ao Chefe do Governo na falta de prudência e de sensatez com que este derrama dinheiro público na economia. A nova titular Elena Zalgado, com excelentes credenciais académicas, engenheira e economista de formação e com um mestrado em gestão, tem fama de ser uma gestora eficiente e, por isso, talvez seja capaz de tomar o controle dos mais de 70 mil milhões de euros de estímulos públicos derramados “à toa” por Zapatero e transformá-los em planos efectivos, com objectivos bem definidos.

 

No meio disto e em plena derrapagem das finanças públicas, Portugal e Espanha também são dos países em que o envelhecimento das populações mais pressões irá fazer a prazo sobre as finanças públicas no que toca a pensões e cuidados de saúde (15,5 pontos percentuais de aumento da despesa pública em termos do PIB em Portugal e 13,5 p.p. em Espanha no horizonte 2005-2050). Também aqui na insustentabilidade das finanças públicas devido a razões demográficas estaremos na mesma luta de “nuestros hermanos”!

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