04.06.2009

Sentido de Urgência

Jaime de Lacerda

 

 

 “Não temos muito tempo para mudar alguma coisa” – A frase não é minha mas sintetiza de forma exemplar a situaçao de emergencia em que se encontra o País e a sua economia.

 

Calculo que por razões antropológicas o povo português é muito capaz de elaborar análises complexas e diagnosticos brilhantes. Consegue, igualmente, fazer programas estruturados e sugestivos. O pior é “a realização”, para já não falar “da avaliação”.

 

Antecipar o futuro, pondo em prática as medidas que ajudam a enquadrá-lo, é uma das caracteristicas fundamentais dos verdadeiros lideres. E quando esse futuro desaba sobre nós, como vem acontecendo nestes últimos meses, ter a capacidade de mudar rapidamente o que deve ser mudado, é outra característica desses mesmos lideres.

 

Em vários sectores da sociedade portuguesa o que observamos é a discussão pobre dos interesses do grupo, sem a menor preocupação do interesse nacional... O  que, só por si, explica grande parte dos problemas da Justiça e da Educação, com reflexos ao nível do desenvolvimento económico e a competitividade do País.

 

Estudos sobre Justiça Económica demonstram que Portugal poderia ter crescido a um ritmo superior em 11% se estivesse dotado de um sistema Judicial eficiente. E quanto à Educação, são hoje evidentes os resultados de uma filosofia segundo a qual  o Ensino é a profissão dos professores e as Escolas o seu local de trabalho...

 

Neste clima de falta de antecipação do futuro, a entrada para a União Económica e Monetária (UEM) foi encarada como uma oportunidade de ouro para comprar a credito no público e no privado, aproveitando o dinheiro fácil e barato da Banca nacional e internacional.

Se nos privados (indivíduos e empresas) este endividamento foi uma decisão racional face às condições de mercado e aos incentivos recebidos, já a actuação do Estado (e de vários Governos) é o exemplo da referida falta de capacidade de previsão e de liderança.

Tivessem os Governos assumido uma estratégia de contenção da despesa pública que compensasse o acrescimo da despesa privada e não estaría o País na situação em que está – à beira da falência!

 

Um País à beira da falência por ter uma dívida aos credores estrangeiros tão grande como o rendimento nacional de um ano inteiro. Ou seja, para a pagar, teriamos todos os que trabalhamos em Portugal de deixar de receber durante um ano os nossos salários e outros rendimentos...

 

Um País à beira da falência com atrasos de pagamentos inadmisíveis do Estado e das Autarquias a fornecedores de bens e serviços (e,brevemente, a funcionários públicos) mas onde se continua a falar de projectos de retorno mais do que duvidoso, sobretudo agora que condições económicas absolutamente novas estão bem presentes.

 

Um País onde dentro de 5 ou 6 anos e, de acordo com projecções do Dr. Henrique Medina Carreira, 90% dos impostos serão absorvidos pelas despesas sociais, cabendo perguntar como se pagariam (então) as outras categorias de despesas?

 

Um País sobrecarregado de impostos (37% do PIB de carga fiscal) e, consequentemente, sem margem de manobra orçamental no actual modelo económico.

 

Um País onde não se hesita em assumir mais compromissos públicos (ainda mais à sombra da crise) e mais despesa pública sem pensar que afinal serão os impostos dos Portugueses a pagar esses acréscimos.

 

Um País “à beira da falência”, não por causa da “crise” mas por erros dos seus Governantes, de vários Partidos, que não estiveram à altura da missão que lhes foi confiada.

 

Em suma, aquilo de que o País precisa é de uma verdadeira liderança, capaz de maior responsabilidade e de um “sentido de urgência” completamente diferente para fazer face aos enormes problemas que se arrastam e que asfixiam a iniciativa dos Portugueses.   

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