02.07.2009

Será desta?

Nuno Fernandes Thomaz

1. Diz-nos a tradição da nossa democracia que não são as oposições que ganham o poder, são os governos que o perdem.

E, valha a verdade, que, sobretudo desde as eleições europeias, o Primeiro Ministro e o seu governo têm contribuído generosamente para que esta tradição se mantenha.

Com efeito, o Engº José Sócrates, tendo beneficiado do “jackpot” político de suceder ao Dr. Santana Lopes, parece querer ultimamente concorrer com ele nas trapalhadas.

Trapalhadas de fazer inveja ao seu antecessor e que devem muito a não ter querido fazer em devido tempo uma remodelação ministerial, mantendo no governo alguns amigos que quase o dispensam de ter inimigos – entre outros, o Engº Mário Lino, a mais segura garantia de que sim é não; e a Dra. Ana Jorge, na realidade a porta-voz do Ministério da Saúde para os casos suspeitos de gripe mexicana.    

Citando a frase com que ainda em tempos de animal feroz o PM brindava a líder do PSD, ele é que “não acerta uma” – o que, pessoalmente, não me deixa triste...

 

2. Estou curioso de saber se nas próximas legislativas será finalmente possível a quem diga a verdade ganhar as eleições. 

E de saber, também, se será desta que ganham as eleições os que prometem “sangue, suor e lágrimas”, em vez do tradicional “bacalhau a pataco”, tão usado e abusado em campanha eleitoral pelos últimos governos (quem não se recorda do choque fiscal do Dr. Durão Barroso e do não aumento dos impostos do Engº José Sócrates).

Assumindo, como assumo, que a Dra. Manuela Ferreira Leite não se esquivará a falar verdade na campanha eleitoral, aguardo para ver quem os eleitores premiarão.

 

3. Não invejo a Dra. Manuela Ferreira Leite e o PSD (sozinho ou em união de facto com o CDS), caso ganhem as eleições e formem governo.

Quanto a mim, o PSD e o CDS cometeram um erro grave como oposição.

A cada reforma do governo trataram de cavalgar o descontentamento, comungando dos protestos de funcionários públicos, professores, médicos, polícias - e por aí fora, que muitas foram as corporações em fúria nesta república mais corporativa que nunca.

Em vez de se ter distanciado habilmente dos protestos e dos descontentes, exigindo do governo que fosse mais longe, mais fundo, até ao fim – para o deixar e ao PS, e à esquerda em geral, com o odioso de medidas que tinham, e continuam a ter, de ser tomadas.

Só que as reformas do governo, com excepção para a da segurança social, foram ficando pelo caminho à medida que se aproximavam as eleições – e, agora, quem tem de as fazer será o próximo governo.

Ora, o pior para quem tem a missão de levar a cabo reformas estruturais são exactamente os simulacros de reformas anteriores não sucedidas - simulacros esses que em manifestações, greves, instabilidade social e descontentamento político acabam por custar o mesmo preço das reformas completadas.

 

4. À semelhança do ocorrido nas campanhas para as duas últimas eleições legislativas, o Forum para a Competitividade não se cansará de interpelar os partidos sobre as orientações políticas que defendem e as principais medidas que propõem ao eleitorado.

Com o intuito de dar a conhecer, não só aos seus associados mas a todos os agentes económicos, a bondade das medidas propostas e, não menos importante, a temperatura da coragem política para as concretizar.

 

5. Pessoalmente, considero que a reforma estrutural decisiva, e mais urgente, é a da justiça.

Portugal é, hoje em dia, o reino da impunidade, com leis a mais e justiça a menos.

Como se não bastasse, não há “accountability” de espécie alguma:  o apuramento de responsabilidades públicas e privadas faz-se em inquéritos administrativos que dão em nada, em inquéritos parlamentares que dão no que a maioria quiser, ou em tribunais que decidem tarde e a más horas, quando não por prescrição.

E se somarmos a tudo isto que o Estado é quem mais se atrasa a pagar o que deve, não admira que os cidadãos andem perplexos, os agentes económicos inseguros, os investidores retraídos - e que a economia fique cada vez mais pobre.

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